Qual a diferença entre mente e consciência?

Você sabe qual a diferença entre mente e consciência? Não? Mais ou menos? Difícil né? Esse tema apesar de complexo é o começo de toda uma jornada espiritual e, por isso, clareza sobre ele é sempre desejável. E quando não existe clareza ficamos suscetíveis a todo um conjunto de “viagens” espirituais, que nos colocam em círculos até entendermos qual a diferença entre mente e consciência.

Uma parte do curso de 3 anos de Coimbatore foi realizada em Rishikesh. Lá tudo é muito diferente, muita gente, muitos monges e muitos estrangeiros. Em contato com visitantes que aparecem de todos os países acabamos por ter uma idéia da visão geral das pessoas sobre yoga – o que se pensa e se sabe a respeito dos temas.

Algo que chama a atenção é que quando tocamos no assunto autoconhecimento muitos não sabem ao certo como lidar com isso. Que existe um buscador isso é claro, mas certa confusão de idéias faz com que se busque aqui e ali sem encontrar respostas.

Os visitantes de toda parte do mundo apresentam suas duvidas.
O que fazer?
Como buscar aquilo que quero?
Onde encontro?
Como saber o que esse ashram (local de estudo) ou aquele vão me dar?
O que eles têm a oferecer é aquilo que preciso?
As perguntas não param, contudo a verdade é que tudo depende mais da pessoa do que dos itens oferecidos. Se o visitante está em busca de certificados ou cargas horárias, isso é fácil e é o que mais tem por aí. Porém, para quem busca saber sobre si mesmo, as “ofertas” caem drasticamente. Até mesmo identificar professores que possuem algum conhecimento é difícil entre as barbas, roupas laranjas, títulos e um acolhimento que sacia a necessidade do ego de se sentir querido e amado. Os dias passam, os meses, e no final pouco realmente se aproveita em termos de conhecimento, tudo que se obtém é um conjunto de experiência exóticas e disso a Índia é especialista.

Para evitar isso seria desejável que o buscador conhecesse um pouco mais a respeito de sua busca, tendo um entendimento geral mais adequado sobre espiritualidade. Só assim o aluno tem a capacidade de avaliar quem está à volta com condição de lhe ensinar.

É coerente assumir que o yogi é uma pessoa inteligente que procura a solução definitiva para as questões fundamentais da vida como: qual é minha natureza, o que é esse mundo e o que é “Deus”. Sem ser preso a esse ou aquele grupo, porque a busca afinal de contas é algo individual.

Não existem fórmulas milagrosas. Não podemos usar como base o caminho traçado por um mestre, achando que usando uma mesma técnica atingiremos o mesmo resultado. A preparação de cada pessoa é diferente, temos histórias diferentes e essa é a beleza da vida.

Como fonte de inspiração todas as histórias motivam, dando-nos força, mas o estudo é o que qualifica o estudante. Se não houver maturidade em aprender e assumir esse papel de estudante, o que o professor vai ensinar não vai ser absorvido.

Nosso ponto de partida é nossa experiência enquanto indivíduo. Primeiro é preciso saber o que é esse corpo, essa personalidade ou a vida que se vive. Afinal não estamos aqui para aprender respostas prontas e repetir a terceiros. Como um bom aluno não estudamos para tirar notas e sim para saber: “o que, ou quem, sou eu”.

Algumas pessoas acreditam que podem resolver o problema com algum tipo de auto questionamento. Porém a pessoa perguntar a si mesma, procurando dar a resposta a algo que ela mesma não sabe é contraditório, vai contra nossa experiência e, portanto, essa não é uma alternativa que vale investimento.

Se eu tenho a dúvida, como posso dar a mim mesmo a resposta do que não sei???

Imagine um garoto que deixa a escola no momento de aprender a equação de segundo grau. Se ele sozinho se perguntar qual é a formula da equação de 2º. Grau, mesmo infinitamente ele jamais saberá a resposta. Apesar dessa proposta na matemática parecer ridícula, compramos essa idéia facilmente em relação à espiritualidade, devido às nossas próprias fantasias de que algo de extraordinário acontecerá na meditação e que tudo pode ficar diferente de uma hora para outra.

Um aluno precisa saber mais sobre si mesmo para começar com efetividade sua “viagem interior”. E a base desse conhecimento é saber o que significa a palavra “mente” e a diferença em relação à palavra “consciência”, que é o objeto de estudo da espiritualidade.

A psicologia ocidental tem um entendimento sobre essas palavras, mas não estamos interessados nele aqui, nosso foco está no que a tradição dos Vedas ensina sobre esses termos. Começaremos pela mente, depois passaremos para o que é consciência e faremos uma curta análise do assunto pra fechar.

Todo o complexo “mente” recebe o nome de “chitta” no sânscrito que tem sua raiz na palavra “chit” que significa consciência. Mas lembremos de que chit é uma coisa e chitta outra. Os Vedas dizem que aquilo que compõe chitta, a mente, se divide em quatro tipos de vrttis – pensamentos:

1) Memória (smrit) que inclui também o inconsciente.
2) Intelecto (buddhi) que é a capacidade de discernir e discriminar.
3) Noção ou senso de eu como individuo (ahamkara)- ou ego.
4) E mente oscilante (manas) que é aquilo que abrange todo o restante dos pensamentos que não se encaixam nas formas anteriores, por exemplo, as emoções, as sensações ou ainda uma imaginação.

Existem outras palavras em sânscrito que também se referem à mente e esses termos também possuem certa flexibilidade na sua interpretação, por isso é importante a presença do professor que explica o contexto de utilização dessas palavras.

Então tudo o que vemos na “tela mental” é aqui abrangido: memórias, senso de eu (como personalidade), raciocínio e emoções de várias ordens. e ainda todas as identificações com os papeis que se representam na sociedade. Também estão aqui adicionados situações e momentos, assim como os sentimentos ligados a todas essas variáveis. Isso tudo é a mente, chitta, que conhecemos e que erroneamente nos identificamos como sendo nós mesmos.

Já a palavra consciência, nos Vedas, é conhecida como “chit”.

As Upanishads usam uma forma peculiar de explicar o que é a consciência com os três aspectos que a compõem ou que indicam sua natureza: “sat-chit-ananda”.

Ela é aquela que está sempre presente. E por isso vemos em muitos textos a palavra “testemunha” que significa estar presente, mas sem envolvimento com aquilo que é testemunhado. Mesmo no sono profundo a consciência testemunha a ausência de pensamentos na mente ou, em outras palavras, o “não funcionamento” dela.

Não importa quando se há 10.000 anos atrás, agora ou milênios à frente sempre ela estará presente. O que significa que ela não tem um começo ou fim. Também significa que não tem um nascimento e que, portanto, também não tem uma morte, como acontece com qualquer corpo na manifestação, ou seja, ela é eterna. Assim ela é chamada em sânscrito de “sat” (existência). Aquilo que existe; existe sempre, caso contrário não poderia receber essa denominação.

O segundo aspecto para o entendimento da consciência é chamado pelo próprio nome de “chit”, nesse contexto a “pura inteligência”. Todo o conhecimento que se manifesta na criação a tem como base. Por detrás de cada nome e forma ela está lá presente. Tudo é permeado por ela, inclusive nossos pensamentos sejam eles de que ordem for.

Ela não pode ter nada que a faça maior do que já é, sendo o sujeito ela é intocável pelos objetos. Assim como ela nunca vai ser menor também, mesmo que o complexo mente (chitta) que a reflete tenha suas limitações. Resumindo, ela é ilimitada e, por isso, alguns textos a denominam de “ananta”. Ela não tem espaços ou lacunas, nem membros o que quer dizer que ela é indivisível e sem uma forma específica. O que significa que não existe outra consciência além dela. Sendo única, está presente em tudo e em todos.

Nela está a base da felicidade em todas as experiências e, por isso, é conhecida também como plenitude (ānanda). É na consciência, segundo as escrituras, que até mesmo o espaço surge. E a partir do espaço tudo o mais se manifesta. O universo está “contido inteirinho nela”.

E por isso que termos que costumamos ouvir no mundo espiritual como: “mega lucidez” ou “hiper consciência” ou ainda “expansão da consciência” são inconsistentes e não se aplicam ao entendimento da palavra consciência como definida nos Vedas.

Observe como é importante entender a relação entre mente e consciência e como é fácil esses nomes confundirem a gente. Imaginemos um diálogo entre professor e alunos assim:

____ Ok, o meu objetivo é expandir minha consciência, mas então o que é hiper consciência?
____ Ah! É um estado de mega lucidez.
____ Hm, mas o que é essa mega lucidez?
____ É aquilo que é chamado de samadhi.
____ Ok entendi, mas o que é samadhi?
____ Samadhi é aquilo que te conduz ao estado de auto conhecimento.
____ Ok entendi, mas o que é esse auto conhecimento?
Aí o “professor” diz:
_____ AAAAHHHH isso eu não sei… Explicar o que é autoconhecimento eu não sei explicar. Se você não sabe o que é, mas tem idéia então você vem e pratica yoga! Mas tem de ser um yoga autêntico, genuíno e não essas coisas de yoga terapia…
Muitos ainda para escapar do aluno em dúvida irão responder com ironia:
_____Tudo isso é muito complexo para sua “cabecinha” e por isso não vou te explicar…

Vendo a situação acima não podemos aferir o que o professor sabe, mas com certeza o aluno não aprendeu nada e pode ser colocado em uma “viagem” espiritual. Mas honestamente falando nada disso tem importância, pois a pessoa com real interesse em aprender não demora a encontrar alguém que entenda do assunto e possa explicá-lo de uma maneira clara e racional.

Fazendo agora pequenas análises podemos constatar que enquanto a consciência, que é você, é pura perfeição, é imutável e infinita; a mente, por sua vez está sujeita a mudanças, é imperfeita, com início e fim, ou seja, temporária. A consciência é real porque sempre existiu e sempre existirá e o complexo mente é aparente ou impermanente porque é passageiro. “Chit”, a consciência, empresta sua “presença” dando realidade para chitta, a mente, e é por isso que existe uma confusão.

Fazendo um paralelo, a consciência é como um cristal sempre puro em si mesmo, e a mente como as cores, na forma das 4 categorias de pensamentos descritos. Quando qualquer cor se aproxima do cristal, ele imediatamente “assume” sua forma. Parece que ele mesmo alterou sua própria cor, mas na verdade ele nunca perde suas características cristalinas. Assim a consciência é aquilo que dá vida a todo o aparato interno incluindo nossa mente, órgãos dos sentidos e o físico, que se sincronizam para seu funcionamento. E devido à aparente proximidade com a consciência, somos induzidos a assimilar as qualidades da mente e do corpo como sendo da própria consciência, exatamente como o cristal e as cores.

A esse fenômeno a tradição chama de super-imposição.

Mas talvez o estudante pergunte: ___Tá mais e daí? O que é que isso vai mudar na minha vida? Que vantagem tem eu saber disso?

Tem uma mudança de paradigma que pode acontecer. Vejamos: se a pessoa super-impõe o real no irreal e vice versa então a consciência que é ilimitada se projeta como sendo o complexo mente e corpo que é limitado. E por isso que todos nós queremos nos imortalizar ou evitar a decadência do corpo, projetando nele as características da consciência. Acontecendo esse engano o processo natural da vida de envelhecimento e mudança gera constante dor e sofrimento pela não aceitação das coisas como elas são.

Portanto, a vantagem de saber diferenciar um do outro, assimilando essa realidade, será a liberdade dos sentimentos de inadequação que surgem da identificação de chit com chitta ou seja a diferença entre mente e consciência.

Na visão das Upanishads você é consciência e não suas impressões apreendidas pela mente. Daqui em diante sempre que a consciência é levada a “dançar” com a mente criando confusão, trazemos o conceito de “chit” e “chitta”.

Com essa discriminação se fazendo sempre presente o estudante tem a maturidade necessária para procurar por um professor e uma tradição que o ajude no entendimento de sua natureza fundamental e não proponha o projeto frustrado de tornar a mente, o corpo e o mundo perfeitos. A perfeição que buscamos é exatamente o que somos essa é a visão de um estudante que busca o conhecimento da sua real natureza: sat chit ananda (existência consciência plenitude). OM TAT SAT

Esse texto foi escrito pelo Roberto Souza.

Fonte: http://www.vedantaonline.org/qual-a-diferenca-entre-mente-e-consciencia/?gclid=CjwKCAiAu8SABhAxEiwAsodSZJK-v1JIUxWd7RUgnslID7atWJTpDJUZir7HtpCeEI7iN1CvaveM4BoCC0kQAvD_BwE

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