AFLIÇÃO OU OPORTUNIDADE?

AFLIÇÃO OU OPORTUNIDADE?

Pense nas vantagens desta rara existência humana.

— JAMGON KONGTRUL, The Torch of Certainty , traduzido para o inglês
por Judith Hanson

É fácil pensar em aflições mentais como falhas de caráter. Entretanto, isso seria uma desvalorização de nós mesmos. Nossa capacidade de sentir emoções, de distinguir entre a dor e o prazer e de vivenciar intuições tem exercido e continua a exercer uma função de sobrevivência fundamental, permitindo que nos adaptemos quase instantaneamente a mudanças sutis no mundo que nos cerca e que formulemos essas adaptações de forma
consciente, para que possamos nos recordar delas quando quisermos e transmiti-las para as gerações posteriores.

Essa sensibilidade extraordinária reforça uma das lições mais básicas ensinadas pelo Buda, que foi pensar no quanto esta vida humana é preciosa, com todas as suas liberdades e oportunidades, em como é difícil obter esta vida e em como é fácil perdê-la.

Não importa se você acredita que a vida humana é um acidente cósmico, uma lição cármica ou o fruto do trabalho de um Criador divino. Se você parar e pensar na ampla variedade e número de criaturas que compartilham o planeta conosco, em comparação com a relativamente pequena porcentagem de seres humanos, chegará à conclusão de que as chances de nascer como um ser humano são extremamente pequenas. E, ao demonstrar a extraordinária complexidade e sensibilidade do cérebro humano, a ciência moderna nos lembra da sorte que tivemos ao nascermos humanos, com toda a capacidade tão humana de sentir e pressentir os sentimentos dos que vivem a nosso redor.

Do ponto de vista budista, a natureza automática das tendências emocionais
humanas representa um desafio interessante. Não é necessário ter um microscópio para observar os hábitos psicológicos; a maioria das pessoas não precisa procurar além de seu último relacionamento. Elas começam pensando: “Desta vez será diferente.” Algumas semanas, meses ou anos mais tarde, elas batem a mão na cabeça, pensando: “Ah, não! Este é exatamente o mesmo tipo de relacionamento no qual eu estava envolvido antes.”

Ou você pode olhar para a sua vida profissional. Você começa em um novo
emprego pensando: “Dessa vez não vou ficar trabalhando até mais tarde só para ser criticado por não fazer o suficiente.” Contudo, depois três ou quatro meses no emprego, você começa a cancelar compromissos pessoais, liga para os amigos e diz: “Não vou conseguir chegar a tempo para o jantar esta noite. Tenho muito trabalho a fazer.”

Apesar de suas melhores intenções, você se pega repetindo os mesmos padrões e, ao mesmo tempo, esperando um resultado diferente. Muitas das pessoas com as quais trabalhei ao longo dos anos me contaram sobre como sonhavam em terminar logo a semana para poder desfrutar do fim de semana. Mas, quando o fim de semana terminava, elas voltavam para o trabalho por mais uma semana, sonhando com o fim de semana seguinte. Ou elas me falavam de como haviam investido tempo e esforço para concluir um projeto, mas nunca se permitiram vivenciar qualquer senso de realização porque logo tinham de começar a trabalhar na próxima tarefa de suas listas. Mesmo quando estão relaxando, elas dizem que permanecem preocupadas com algo que aconteceu na semana anterior, no mês anterior ou até no ano anterior, relembrando as cenas várias e várias vezes em suas cabeças, tentando entender o que poderiam ter feito para que o resultado fosse mais satisfatório.

Felizmente, quanto mais acostumados estamos com o exame de nossas mentes, mais próximos ficamos de encontrar uma solução para qualquer problema que possa estar nos afligindo e mais facilmente reconhecemos que o que vivenciamos — apego, aversão, estresse, ansiedade, medo ou desejo — é simplesmente uma invenção de nossas mentes.

As pessoas que investiram um esforço honesto em explorar sua riqueza interior naturalmente tendem a desenvolver algum tipo de fama, respeito e credibilidade, independentemente de suas circunstâncias externas. A forma como elas se comportam em todo tipo de situação inspira nos outros um profundo senso de respeito, admiração e confiança. Seu sucesso no mundo nada tem a ver com a ambição pessoal ou uma necessidade de chamar a atenção. Ele não é conseqüência de ter um bom carro ou uma bela casa ou de ter um cargo importante. Em vez disso, o sucesso provém de um amplo e
relaxado estado de bem-estar, que lhes permite enxergar as pessoas e as situações de modo mais claro, e também manter um senso básico de felicidade, independentemente de suas circunstâncias pessoais.

Na verdade, muitas vezes ouvimos falar de pessoas ricas, famosas e influentes que um dia são forçadas a reconhecer que suas realizações não lhes proporcionaram a felicidade esperada. Apesar de toda sua fortuna e poder, elas nadam em um oceano de dor, que, algumas vezes, é tão profundo que o suicídio parece ser a única escapatória. Essa dor intensa resulta da crença de que os objetos ou as situações têm o poder de criar uma felicidade duradoura.

Se realmente você quiser descobrir um senso duradouro de paz e contentamento, precisa aprender a repousar sua mente. Só pelo repouso da mente, suas qualidades inatas podem ser reveladas. A forma mais simples de limpar a água obscurecida pela lama e outros sedimentos é permitir que a água se acalme. Da mesma forma, se você permitir que a mente repouse, a ignorância, o apego, a aversão e outras aflições mentais gradativamente se estabilizarão e a compaixão, a clareza e a expansão infinita da natureza real de sua mente se revelarão.

Trecho do livro de  Yongey Mingyur Rinpoche:

A Alegria de Viver – Descobrindo o Segredo da Felicidade